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Ilustração “O Seringueiro”, da série “Tipos Tradicionais Brasileiros”
Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Chico
Onde houver uma vida
Sua voz será ouvida
Como força de oração
Do amor pela terra
Que não se encerra num coração
Sou mais um nessa guerra
Quebrando a serra da devastação

Me abraço à natureza
E a Deus peço axé
Em louvor a Chico Mendes
Sua luta, sua fé
Homem simples, seringueiro
Um valente brasileiro
Homem simples seringueiro
Um valente brasileiro

Que ao mundo fez seu manifesto
Um protesto à crueldade e à tirania
Das derrubadas, das queimadas
É a Amazônia em agonia
E hoje chora a saudade
De Nova York a Xapuri ô ô
Do Oiapoque ao Chuí, xi!
Será que as coisas mudam por aqui?

Na Amazônia
A Amazônia tá virando zona de liquidação
Sem cerimônia, matam e metem a mão
Na Amazônia
A Amazônia tá virando zona de liquidação
Sem cerimônia, matam sem perdão

Um líder, Chico
Onde houver uma vida
Sua voz será ouvida
Como força de oração
Do amor pela terra
Que não se encerra num coração
Sou mais um nessa guerra
Quebrando a serra da devastação

Ah, meu verde
Meu verde não é rabo de foguete
Vai tacar fogo no cacete
Ah, meu verde
Meu verde não é rabo de foguete
Vai tacar fogo no cacete

Louvor a Chico Mendes
De Almir De Araújo / Marquinho Lessa

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Seringueiro

O seringueiro é o personagem característico da região Norte e Centro Oeste do Brasil, responsável pelo oficio de coleta do látex da árvore da seringueira (Hevea brasiliensis) e a preparação das pelas para venda. O látex é a matéria prima da borracha.

O Ciclo da Borracha foi um momento importante na economia do Brasil. Teve o seu centro de desenvolvimento na região Amazônica. A borracha era chamada de ouro negro e foi responsável pelo crescimento de cidades como Manaus, capital do estado do Amazonas, Porto Velho, capital do estado de Rondônia e Belém capital do estado do Pará. Uma das expressões da riqueza da borracha, na época, é o Teatro Amazonas, em 1896. Rico e suntuoso, o calçamento do seu entorno foi coberto com a borracha, para que as carruagens que por ali passassem, não perturbassem os espetáculos. O ciclo da borracha viveu seu auge entre 1879 e 1912, tendo experimentado uma sobrevida entre 1942 e 1945, durante a II Guerra Mundial, que foi de 1939-1945.

O látex é recolhido das árvores através de incisões feitas nos caules, em cortes feitos em forma de espinha de peixe. No final do sulco central, um pequeno baldinho coletor de metal, ou uma cuia de cabaça, é posicionado para recolher o látex. Esta etapa tem o nome de sangria do látex. Cada árvore produz uma média de doze litros por ano, ou um litro por mês. As seringueiras vivem até cinquenta anos, mas produzem o látex somente a partir dos sete anos.

O látex é uma secreção geralmente esbranquiçada, produzida por algumas plantas como a papoula, a seringueira, o mamoeiro e o caucho (Castiloa ulei), produz um tipo de látex que coagula muito rápido exigindo, para sua retirada, outro tipo de processo, diferente do descrito abaixo. O látex é uma reação ao ferimento provocado à planta, um processo químico com o objetivo de cicatrização.  

A vida dos seringueiros artesanais requer uma rotina dura, ligada às necessidades da natureza: todos os dias acordam cedo, caminham longe pelas estradas das reservas, colocando as tigelinhas nas árvores para coletar o látex. Depois de umas cinco horas, passam retirando o látex e colocando em algum recipiente maior. Com este material, dirigem-se até o tapiri, um local coberto com folhas de sapé, onde localiza-se o forno para fazer a defumação do látex.

O fogo é feito em baixo da terra. Na altura do chão há um forno de barro, em formato de um cone, com um buraco em cima, por onde sai a fumaça que vai defumar o látex e formar a pela. Usa-se o coco de babaçu para a melhor queima. A pela é uma bola de borracha, o material que é vendido, podendo chegar a cinquenta quilos. Fica posicionada no meio de uma vara de 1,50 m. Esta vara tem o nome de “cavador”.

O seringueiro posiciona uma pequena bolinha de goma coagulada no centro do cavador, posiciona a bolinha sobre a fumaça que sai do forno e começa a derramar o látex que acabou de coletar, sobre ela. Conforme vai girando a bola, a peia, aos poucos ela vai crescendo com o acumulo e a coagulação do látex. O trabalho é lento e que demora muitos dias.

O seringueiro fica no trabalho da defumação, cerca de duas horas e, embora o ambiente seja aberto, a fumaça vai diretamente para seus olhos e pulmões. Trata-se de um oficio desgastante, mas sustentável, de muito pouco impacto para a natureza. Por isso o oficio do seringueiro tradicional goza de muito valor e importância.

A borracha chamada “borracha em bruto”, é deformável e passa por mais uma série de processos para adquirir propriedades diversas como variação na elasticidade, na dureza, resistência e outros, tornando-a um produto largamente usado na indústria.

Outro aspecto é que as comunidades localizadas nos seringais e entorno, também se beneficiam do trabalho do seringueiro.

Um exemplo são os sacos encauchados, sacos de tecidos impermeabilizados com látex, decorados, utilizados como malas para viagens e para carregamento de mercadorias pelos caboclos e índios da selva.

O encauchado tem origem nos índios da Amazônia e, mais antigos ainda, índios da Colômbia. Trata-se de uma técnica de impermeabilização de tecidos utilizando-se o látex. Os sacos encauchados eram utilizados também para o transporte do próprio látex, levado nas costas do seringueiro.  

A criatividade do povo da Amazônia, ampliou a transformação do látex para a produção de objetos de decoração, artesanato, utilitários, objetos de uso pessoal, tecidos ecológicos e couro vegetal.

O mundo da economia criativa, seja moda, movelaria, etc, exige que os produtos tenham cada vez mais criatividade, qualidade e originalidade.

O couro vegetal da Amazônia é um exemplo que atende a esta demanda.

O couro vegetal é um produto obtido de um processo ecologicamente correto, originário de tradições dos índios e seringueiros: eles banham tecidos de algodão com o látex, derramando-o cuidadosamente sobre o tecido, estendido sobre um esquadro de madeira. Ao látex é acrescentado alguns produtos que dão durabilidade e qualidade ao produto final.
O próximo passo é a defumação do tecido no esquadro: o seringueiro vai passando-o sobre a fumaça do forno defumador. Depois disso, leva-se ao sol, para finalizar a secagem.

Na cidade de Machadinho D´Oeste, localizada a 400 km de Porto Velho, capital do estado de Rondônia, existem 12 reservas extrativistas, sendo 8 ativas. Em uma delas, a Quariquara, moram 38 famílias. Eles transformaram o látex em um tecido ecologicamente correto e de produção sustentável com a finalidade de se produzir pastas, bolsas e mochilas. O processo acontece na hora da defumação, onde o látex é defumando sobre uma manta de algodão. A comunidade aprendeu a costurar e com este tecido da floresta e produz bolsas que são vendidas em lojas de vários estados brasileiros.

Para uma produção maior se usa uma estufa. Com mistura de pigmentos, pode-se fazer uma gama imensa de cores.

A produção sustentável da borracha para a confecção de artesanato, couro vegetal e outros produtos que une design e sustentabilidade, atraem o interesse de indústrias do mundo todo. O incentivo das instituições brasileiras na exploração sustentável do látex, tem levado ao aumento da renda às comunidades de seringueiros do Norte do Brasil.

Tembém o artesanato típico tem sua expressão nas figuras feitas em Balata da Amazônia, um tipo de látex elástico, proveniente de uma árvore chamada balateira, também conhecida como maparajuba (Manilkara bidentata). Nas cidades de Monte Alegre, Alenquer, Santarém e Belém, no estado do Pará, as figuras típicas da mata como a onça, o índio, o pescador, o barqueiro, são moldados com a balata como matéria prima. 

A balata era exportada, nas décadas de 1930 e 1970, onde era utilizada para a produção de correias de transmissão, cabos telefônicos, válvulas mecânicas, materiais telegráficos e odontológicos, entre outros produtos. Estes produtos acabaram sendo substituídos pelo petróleo e por outros tipos de látex. Então, com a queda da demanda internacional pelo produto, alguns artesãos aproveitaram o látex que estava estragando, para transformá-lo em artesanato.

Outro personagem importante para a história do país foi Chico Mendes, grande líder dos seringueiros, sindicalista e ativista ambiental, que se destacou nacional e internacionalmente na luta pela preservação do modo de vida dos seringueiros na selva, sempre buscando, através da União dos Povos da Floresta em defesa da Floresta Amazônica, unir os interesses de índios, seringueiros, castanheiros, pequenos pescadores, quebradeiras de coco babaçu e populações ribeirinhas, através da criação de reservas extrativistas.

As reservas extrativistas surgiram como alternativa para o desenvolvimento sustentável para a Amazônia. No estado do Acre, existem 5 reservas, entre ela a Reserva Extrativista de Xapuri, criada em 1990 por Chico Mendes. Nela vivem cerca de duas mil famílias, que tem como principal fonte de renda a extração da castanha do Brasil e da borracha.

Também no estado do Acre podemos encontrar o parque Urbano Capitão Ciríaco, um antigo seringal, propriedade de Ciríaco Joaquim de Oliveira (1858-1938). Localizado no centro da capital, Rio Branco, o parque é considerado o único seringal urbano do mundo, conta com cerca de 360 seringueiras e um seringueiro que produz a borracha de forma tradicional.

O oficio do seringueiro permanece vivo, passando de geração para geração. O dia 3 de março é comemorado o dia do seringueiro.

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Textos: OPY Comunicação Integrada
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