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Ilustração “A Mulher Rendeira”, da série “Tipos Tradicionais Brasileiros”
Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Olê muié rendera
Olê muié rendá
Tu me ensina a fazê renda
Que eu te ensino a namorá

Lampião desceu a serra
Deu um baile em Cajazeira
Botou as moças donzelas
Pra cantá muié rendera

As moças de Vila Bela
Não têm mais ocupação
Se que fica na janela
Namorando Lampião

Mulher Rendeira
Elba Ramalho
De Zac do Norte, sobre motivo atribuído
a Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião

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A Rendeira

A renda de bilro vem de uma longa tradição, passada de mãe para filha. Chegaram no Brasil pelos portugueses do arquipélago de Açores, em 1748. Ao virem para o Brasil os portugueses trouxeram a atividade da renda para enfeitar trajes, toalhas, cortinas, lençóis e as peças de vestuário da nobreza.

Característica de Santa Catarina e Ceará, graças a maior concentração de açorianos, as rendeiras executam os mais variados trabalhos em renda. As mulheres exercitavam a criatividade inventando pontos como “maria morena” e “tramoia”, este considerado típico da Ilha de Santa Catarina. Hoje a cidade de Florianópolis, que reúne o maior número de rendeiras do sul do Brasil, se orgulha ter o bilro como referência cultural associada ao município.

As rendeiras trabalham tecendo suas rendas sobre uma almofada cilíndrica feita de pano grosso, dura, recheada de ‘barba de velho’, capim de colchão, palha de bananeira, serragem, ou, ainda, esponja sintética, também denominada de espuma, misturada com estopa. Chama-se rebolo, nome dado à mesma almofada em Portugal.  O rebolo é posicionado sobre as cangalhas, um tipo de caixote desmontável, em madeira, que segura a almofada. Sobre o rebolo é colocado o desenho, um cartão de papel com desenhos perfurados chamado pique. Nestes furinhos, a renderia espeta os alfinetes que seguram os fios. Pode-se usar também espinho de laranjeira ou espeto de jurumbeva, palavra tupi-guarani para designar espécie de cacto, também chamado de jurumbeba, urumbeba, urubeba, entre outros. Os fios são manipulados através dos bilros ou birros, pequenas peças de madeira esculpida, que variam em formato e tamanho. Servem para enrolar a linha que a rendeira usa para tecer, como carreteis.

Os bilros são pequenas bobinas de madeira, geralmente preparadas e torneadas pelos maridos ou por parentes das rendeiras. A madeira mais empregada para sua confecção é a rabo de macaco (Melaxonylon brauba). Os bilros são manejados aos pares pela rendeira, em movimento rotativo. A linha preferida das rendeiras é a de puro algodão, de diversas espessuras. Empregam tipicamente as cores branca e bege, embora encontremos linhas coloridas.

A rendeira mexe com os bilros aos pares, em movimentos muito rápidos, quase imperceptíveis, executando os pontos no ar, prendendo-os, nas suas extremidades, pelos alfinetes fincados no pique que está sobre a almofada. Há vários tipos de trançados ou pontos.

A atividade exige habilidade, concentração e calculo matemático.

A renda de bilro foi a principal atividade exercida pelas mulheres de pescadores no século passado. Por isso o ditado “onde há rede, há renda”. Sentadas em cadeiras embaixo da sombra de grandes árvores, teciam as rendas, conversavam, cantavam, diziam versos. A maioria não sabia ler ou escrever e algumas fumavam cachimbo. A atividade da renda e do pescado eram responsáveis pelo sustento das comunidades litorâneas de vários estados do Brasil. As rendeiras são mulheres carinhosas e atenciosas, demonstrando o orgulho que têm por exercer uma atividade tradicional.

Encontramos rendeiras o município de Raposa, uma das maiores colônias de pescadores do estado do Maranhão, na ilha de São Luís. A cidade vive da pesca e do artesanato da renda de bilro. As rendeiras chegaram ao local na década de 1950 – 1960, vindos do município de Acaraú, estado do Ceará. Na cidade até as crianças fazem a renda. As rendeiras utilizam os espinhos de mandacaru no lugar dos alfinetes. O corredor das rendeiras é a via principal para se conhecer o trabalho destas artesãs.

A tendência desse tipo de artesanato é desaparecer, pois as novas gerações não estão tão interessadas em tecer e, compradores, em comprar. A renda é uma profissão de fé e amor pelo ato de fazer. Infelizmente está se perdendo a esperança de se viver da renda. Elas dizem que fazer a renda é um bom antidepressivo para suas vidas.

“Se eu deixar de fazer renda, vou pegar uma depressão que vou morrer, porque quando eu estou fazendo renda, escutando rádio, eu não estou botando coisa ruim na minha cabeça. A doença mais triste do mundo é a depressão”, afirma Dona Delgícia Amélia Góes, que vive na Costa da Lagoa, região de rendeiras da cidade de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina.

Em homenagem a esse fazer artesanal tão ligado à cena cotidiana, no calendário de Florianópolis, o dia 21 de outubro consta como o Dia Municipal da Rendeira, instituído pela Lei no 8030/2009.

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Textos: OPY Comunicação Integrada
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