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Ilustração “O Vaqueiro Nordestino”, da série “Tipos Tradicionais Brasileiros”
Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Ei, gado, oi…. 
Numa tarde bem tristonha 
Gado muge sem parar 
Lamentando seu vaqueiro 
Que não vem mais aboiar 
Não vem mais aboiar 
Tão dolente a cantar 
Tengo, lengo, tengo, lengo, 
tengo, lengo, tengo 

Ei, gado, oi 
Bom vaqueiro nordestino 
Morre sem deixar tostão 
O seu nome é esquecido 
Nas quebradas do sertão 
Nunca mais ouvirão 
Seu cantar, meu irmão 
Tengo, lengo, tengo, lengo, 
tengo, lengo, tengo 

Ei, gado, oi 
Sacudido numa cova 
Desprezado do Senhor 
Só lembrado do cachorro 
Que inda chora 
A sua dor 
É demais, tanta dor 
A chorar, com amor 

Tengo, lengo, tengo, lengo, 
tengo, lengo, tengo 
Tengo, lengo, tengo, lengo, 
tengo, lengo, tengo 
Ei, gado, oi 
E… Ei…….

A Morte do Vaqueiro
Luiz Gonzaga | Compositor: Nelson Barbalho

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Vaqueiro Nordestino

A história do vaqueiro começou quando o Brasil era colônia de Portugal.

Em 1534 chegaram as primeiras cabeças de gado, vindas da Ilha de Cabo Verde, África.  Como as terras eram muito extensas, e o rebanho precisava dos pastos, era preciso alguém que cuidasse dos animais, no caso os vaqueiros. Portanto, o vaqueiro é um tipo étnico que vem do contato do colonizador com o índio, durante a penetração do gado nos sertões do Nordeste brasileiro. Habitam a região da caatinga uma área de clima semi árido, que ocupa praticamente todo o Nordeste.

Trabalham como no século XVII. Desde criança aprendem a correr atrás e laçar os bois no curral. Vão “aboiando”, tocando a boiada entoando o aboio, um canto sem palavras, típico dos vaqueiros, que cantam quando conduzem seus bois para o pasto ou curral.  Eles aboiam também quando precisam orientar o gado que se perde na serra, ou se extravia numa caatinga.

Quando um boi se desgarra, foge, eles saem como um raio, por entre a paisagem seca, passando por galhos, pontas de pau e espinhos dos cactos. É a pega de boi. Neste momento, o vaqueiro corre o risco de se ferir na vegetação. E para que isso não aconteça, ele aprende a desenvolver técnicas de se safar dos galhos, utilizadas com muita maestria e habilidade.

Por isso o vaqueiro precisa de uma roupa especial, que funcione como uma armadura ou couraça, o que acaba se tornado sua segunda pele.

Sua vestimenta é caracterizada pela predominância do couro cru, onde ainda hoje se utilizam processos primitivos para a curtição, o que o deixa com uma cor ferrugem, flexível e macio. O vaqueiro se orgulha de vestir sua roupa de couro, principalmente quando participam das cavalgadas e manifestações culturais, onde desfilam seus trajes típicos sobre seus cavalos, ao lado de bois, tocando o berrante.

As roupas típicas dos vaqueiros são compostas pelas guardas, ou perneiras, uma calça de couro que vai sobre outra calça mais fina, trançadas por trás, sendo amarradas na frente, e que têm o objetivo de proteger as penas contra os espinhos abundante na flora da região, deixando o corpo do vaqueiro com liberdade de movimentos para cavalgar ou mesmo se safar dos galhos; os sapatos têm o nome de alpercata ou usa-se as botinas de couro, fortes e firmes; as esporas fazem parte do traje e têm a função de instigar os cavalos para correrem; um chicote de couro, significando que estão sempre prontos para montar a qualquer momento e o guarda-peito, parapeito, ou peitoral, preso por uma espécie de alça que passa pelo pescoço e protege o peito do vaqueiro contra espinhos que se localizam na parte alta as plantas, bem como eventuais pancadas no peito.

Muito importante em sua vestimenta é o gibão, um casaco de couro que tem a finalidade de proteger o vaqueiro nos braços e nas costas contra pancadas dos galhos de árvores. Há também as luvas de couro, que são amarradas no pulso, e protegem as costas das mãos, deixando as palmas e os dedos livres para o trabalho. O chapéu, típico nordestino, também em couro forte, protege o vaqueiro do sol, dos espinhos e galhos da caatinga. Também podem ser usados para beber água ou comer. Suas roupas são ricamente recortadas e bordadas.

Outro aparato típico é a sela, muitas vezes herdadas de pai, avo e bisavô.

“Foi feita mesma a capricho de couro de lobisomem, fantasma, mula de padre, bichos que vivem e não comem. É rainha da floresta outra da espécie desta, não fará mais outro homem.
Com esta sela o cavalo corre mais do que o vento. Tem tanta velocidade que ultrapassa o pensamento.”

(O Homem de Couro, 1970)

Muitos deles mantem a tradição e se reúnem em missas que homenageiam vaqueiros.

Na cidade de Serrita, localizada a 535 quilômetros de Recife, capital do estado de Pernambuco, todos participam com fé e devoção da tradicional Missa do Vaqueiro. A missa acontece ao ar livre, no terceiro domingo do mês de julho e reúne vaqueiros de todas as partes do Brasil.  Criada em 1970, em homenagem ao vaqueiro Raimundo Jacó, primo de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, covardemente assassinado em 1954, acontece aos moldes de uma missa católica, porém, comungam, no lugar da hóstia, com comidas típicas como farinha de mandioca, rapadura e queijo, sempre montados a cavalo.

O vaqueiro morto tornou-se um ídolo, uma referência, um símbolo de força e poder para os vaqueiros.

O início da celebração acontece com uma procissão de mil vaqueiros que, a cavalo, levam, oferendas a Raimundo Jacó como chapéu de couro, chicotes e berrantes, deixando os objetos num altar de pedra rústica, em formato de ferradura. 

Raimundo Jacó era um vaqueiro muito destemido, invejado por ouros vaqueiros. Acabou sendo assassinato de forma brutal. A história conta que quem velou o corpo do vaqueiro foi seu fiel companheiro de aboiada, seu cachorro, que ficou junto ao corpo de seu dono até sua morte. O corpo do vaqueiro Raimundo Jacob, foi encontrado em Serrita, no sitio Lages, onde é celebrada a missa. 

Depois da labuta de sol a sol, o vaqueiro tem seu momento de festa e alegria, que encontram nos festejos, quando dançam o forró pé-de-serra, tão tradicional no sertão nordestino, tocado com sanfona, triângulo e zabumba.

O vaqueiro é um personagem da cultura brasileira, típico do sertão, nordestino autêntico, de raiz, forte, que tem um modo de ser, falar, dançar, rezar e viver tradicional. 

O Dia Nacional do Vaqueiro Nordestino é 20 de julho e sua festa mais importante é a vaquejada.

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Textos: OPY Comunicação Integrada
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