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Ilustração “A Lenda de São Sepé”, da série “Tradições Gaúchas”.
Copyright Lu Paternostro. Proibida cópia, uso ou reprodução desta imagem sem a autorização da artista.

Nem bem clareia já me
encontro chimarreando
Ao pé do fogo que
aquenta as madrugadas
Daqui um poquito o sol
desponta no horizonte
“Tô desde ontonte co’as
idéia engarrafada
Pra o parapeito do galpão
arrasto as “garra”
Bucal na mão vo
“tiflando” pra mangueira
Meu sestrosa me
cuidando a matungada
Vem da invernada e
fica “flor de caborteira”
Mas que me importa
pois me levantei aluado
Cano virado das minhas
botas garroneiras
Toda segunda tem bagual
de lombo inchado
Adivinhando que passei
de “borracheira”
Junto as “argola” do
cinchão no osso do peito
“precuro” um jeito
busco a volta e me enforquilho
Depois que “munto” e
atiro o “caixão” pra trás
Só Deus com um gancho
pra me “saca” do lombilho
Me dá vontade de “prende”
o buçal na cara
Deste picaço que
esqueceu como se forma
Mas eu garanto que
embaixo dos meus “arreio”
Conhece o ferio e aprende
a “respeitá as norma”
Pego-lhe o grito
“tacho os ferro” na paleta
De boca aberta o
queixo-roxo vende garra
Lida baguala que
em muitos mete medo
Meu xucro ofício que
por vício eu fiz de farra.    

“Um Canto A Tiaraju”
Jorge Freitas

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A Lenda de São Sepé (Sepé Tiaraju)

Sepé Tiaraju é um índio missioneiro valente e forte, que se tornou líder guarani no século XVIII. Guerreiro, assumiu a defesa do seu território na guerra contra a Espanha e Portugal.

Nas planícies férteis do sul do Brasil, mais precisamente as fronteiras oeste do estado do Rio Grande do Sul, eram muito cobiçadas por suas terras verdes e muito férteis. Neste local, na época das Missões Jesuíticas de catequização dos índios, os padres viviam em paz com os guaranis. Formou-se uma sociedade harmônica, próspera, igualitária, fraternal, onde os índios aprendiam a fazer e a tocar instrumentos, construir em sociedade, viver em sintonia com a natureza.

Toda essa liberdade dos índios e padres jesuítas nas terras tão ricas, atiçou a cobiça dos colonizadores brancos. Com os olhares fixos sobre a região, e com o Tratado de Madri, Portugal cedia à Espanha a Colônia de Sacramento, no Uruguai, e a Espanha entregava aos portugueses as terras onde estavam situados os 7 Povos das Missões, as reduções consideradas mais populosas e ricas.

Nesta ganaciosa divisão, os guaranis tinham de abandonar suas terras com os bens que pudessem carregar, para o outro lado do Rio da Prata, deixando seus templos, lavouras, suas casas. Os guaranis não aceitaram. Resolveram defender seu território.

Portugal e Espanha se unem para fazer valer seu novo trato, mas os Guaranis resolvem resistir fortemente. Logo, os colonizadores foram seguidos pelos Guaranis da redução de São Miguel, chefiados pelo corregedor Sepé Tiaraju, líder do exército Guarani.

Diziam que era predestinado por Deus, pois havia nascido com uma cicatriz em sua testa que tinha o formato de uma lua. Durante o dia parecia algo comum, mas a noite ou em pleno combate, o lunar brilhava, guiando, assim, os soldados missioneiros. Isso o torna um ser único e celestial.

Os padres, pressionados pelas cortes reais por deixarem os índios serem tão teimosos e desobedientes, tentaram fazer com que desistissem desse enfrentamento, fazendo-os acreditar que eram fracos e pouco equipados para lutar contra as armas poderosas dos brancos europeus. Mas os índios, definitivamente, não aceitaram tal imposição e tocaram em frente, combatendo contra aqueles que para eles eram os intrusos em suas terras sagradas, os colonizadores brancos. 

É de Sepé a frase: “Esta terra é nossa! Nós a recebemos de Deus e do arcanjo São Miguel. Somente eles nos podem deserdar! ”

Atacado pelos portugueses ao norte e pelos castelhanos ao sul, ao Guaranis resistiram durante anos até a batalha de Caiboaté, em 1756, onde morreu em combate, Sepé Tiaraju

Conta a lenda que a cicatriz em forma de lua que Sepé tinha na testa, depois da sua morte, se projetou em forma de estrelas e criou o Cruzeiro do Sul para ser o guia de todos os gaúchos. 

“O mito de Sepé Tiaraju, como herói nacional, passou a pertencer, efetivamente, ao conjunto de elementos… para a formação da identidade e representação do gaúcho, a partir do século XX, quando Simões Lopes Neto publicou o poema Lunar de Sepé, em Lendas do Sul (1913).” (NUNES, 2014)

Sua lenda perpetuou-se por todo o estado do Rio Grande do Sul, tornando um herói popular para seu povo. Graças a ele o tesouro guarani ainda está lá e a lembrança de sua luta habita os corações de seus descendentes.

O povo da região das Missões guarda a memória de Sepé Tiaraju como um santo que morreu como um mártir. Há uma cidade em homenagem a ele, a cidade de São Sepé, localizada no Rio Grande do Sul.

Sepé Tiaraju ou São Sepé cada vez mais revive hoje na mente e nas ações de todos aqueles que buscam uma forma melhor de viver, uma Pátria mais fraterna, uma Terra sem Males. Tornou-se um símbolo de resistência e de não aceitação de uma sociedade medíocre, preconceituosa, gananciosa.

Sepé Tiaraju é considerado um dos maiores heróis brasileiros.

No dia 3 de novembro de 2005, o estado do Rio Grande do Sul o considera Herói Guarani Missioneiro Rio-grandense. Em 2009 Sepé Tiaraju foi inscrito no Livro dos Heróis da Pátria.

No dia 7 de fevereiro de 2015, comemora-se 259 anos da morte de Sepé Tiaraju.

Textos: OPY Comunicação Integrada
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